
Na planilha de quem escolhe onde instalar um centro de distribuição, o aluguel do galpão costuma ser a linha mais visível. Mas boa parte do custo de uma operação logística está em algo menos óbvio: os minutos que cada caminhão gasta entre o portão e a rodovia. Cidades com saída direta para um anel viário encurtam esse trecho e, por isso, entram cedo na lista de quem planeja expansão. O caso de Poá, na Grande São Paulo, que ganha um novo acesso ao Rodoanel com as obras do Complexo Viário do Alto Tietê, ajuda a entender por quê.
O chamado first mile, o trecho entre a origem da carga e a via principal, parece pequeno no mapa, mas pesa na conta. Um caminhão que precisa atravessar bairros, rotatórias e semáforos para chegar à rodovia enfrenta três problemas ao mesmo tempo:
Quando a saída para o anel viário fica a poucos minutos do portão, a primeira etapa da viagem passa a ser previsível. E previsibilidade, em logística, se converte em capacidade.
O efeito aparece em três indicadores que qualquer gestor de operação acompanha.
Tempo de doca. Se o caminhão chega no horário marcado, a doca é liberada no ritmo planejado. Atrasos no trajeto criam filas, horas extras da equipe de carga e ociosidade em outros momentos do turno.
Giro da frota. Um veículo que economiza meia hora em cada viagem de ida e volta pode, ao longo da semana, fazer entregas adicionais com o mesmo motorista e o mesmo equipamento. Em frotas grandes, isso muda o número de caminhões necessários.
Cumprimento de janela. Varejistas e indústrias trabalham com janelas de recebimento cada vez mais estreitas. Quem sai de um ponto com acesso direto à rodovia tem mais margem para cumpri-las sem antecipar a partida.
Por isso, a análise de localização séria compara o custo total, e não só o preço do metro quadrado do galpão. Um imóvel mais barato, mas a vinte minutos de trânsito da rodovia, pode sair mais caro ao longo de um contrato de cinco anos.
O Trecho Leste do Rodoanel Mário Covas foi inaugurado em 2014 e liga a Rodovia Ayrton Senna à Presidente Dutra, passando por municípios como Arujá, Itaquaquecetuba, Poá e Suzano. Nos primeiros meses, o fluxo ficou abaixo do previsto. Um dos gargalos apontados era justamente chegar à pista: as cidades do entorno tinham acessos limitados, e o trajeto até o anel continuava longo.
O projeto do Complexo Viário do Alto Tietê ataca esse ponto. A obra é executada pela concessionária dos trechos Sul e Leste do Rodoanel, com investimento anunciado de R$ 1,2 bilhão, e prevê em Poá dois viadutos de acesso, com cerca de 900 e 850 metros. Entre os benefícios divulgados pelo governo estadual estão a redução de até 30 minutos no tempo de acesso às cidades da região e o centro de Poá a menos de 5 minutos do Rodoanel.
Para uma operação logística, esse tipo de mudança altera o raio de atendimento. A partir de um mesmo endereço, passa a ser possível chegar à Dutra, à Ayrton Senna e às conexões com o ABC pelo anel, sem atravessar a malha urbana. A conclusão está prevista para o fim de 2027, e o cronograma de uma obra desse porte sempre pode mudar.
Quem avalia instalar ou transferir um centro de distribuição para uma cidade que ganha acesso novo pode organizar a análise em etapas:
Localização não resolve processo mal desenhado. Mas um bom processo instalado no lugar errado passa o dia inteiro brigando com o trânsito.
O que é first mile na logística? É o primeiro trecho do transporte, entre a origem da carga, como uma fábrica ou um centro de distribuição, e a via principal. Por acontecer em área urbana, costuma ser a parte mais imprevisível da viagem.
Por que o acesso direto a um anel viário reduz custos? Porque encurta e torna previsível o trajeto até as rodovias. Isso melhora o uso das docas, permite mais viagens por veículo e facilita o cumprimento das janelas de entrega.
O que o Complexo Viário do Alto Tietê muda para a logística da região? A obra cria novos acessos entre o Rodoanel e cidades como Poá e Suzano. A expectativa oficial é reduzir em até 30 minutos o tempo de acesso, com conclusão prevista para o fim de 2027.